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En mi habitación

Kelem Duarte
A paisagem que imagino ver à janela do meu quarto

 A cama desarrumada, o livro surrado no banco ao lado, algumas roupas por cima da estante esperando para serem guardadas. A bagunça já ultrapassou o âmbito do quarto. Sempre tive o quarto como reflexo da nossa vida. Pode parecer uma associação barata e clichê, mas parando para pensar é mesmo. Quando ele está muito organizado, muito bonito, muito limpo, muito alguma coisa é de estranhar. A vida quando vem acompanhada da palavra 'muito' é porque tem algo de errado. Seja muito amor, muito desamor, muito sono, muita desilusão, muita fome, eu já nem sei muito o que, mas não é nada bom.

Por falar em afirmações baratas, cito outra, o tal do Agosto. Dizem que é o mês do desgosto, eu discordo em vários pontos. Muitas coisas boas podem acontecer em nossas vidas nesse mês, acredito que desgosto a gente já teve o ano todo também, um mês a mais um mês a menos não faz diferença. Quando se entra em férias dizem também que é um momento de descanso, de aproveitar, mas e quando as coisas não vão bem não adianta, seja em agosto, em janeiro ou em novembro. Não adianta disfarçar, não adianta arrumar o quarto, acender um incenso, deixar o sol entrar. As coisas não se resolvem apagando a luz e deitando a cabeça no travesseiro.

De uns tempos para cá, comecei a me desapegar de tudo que me prendia demais. Mas não foi tão fácil assim, aquele velho amor as vezes bate à porta. Os velhos problemas familiares também vem me assombrar na calada da noite. As velhas lembranças ruins daquele janeiro muitas vezes me tiram do sério. Tudo que é sentimento velho, fica resguardado em algum canto, e um belo dia afloram.

Quando as coisas parecem não ter solução, a vontade é de acender um cigarro, mas não fumo. Tomar um café, mas já é noite e terei insônia. Por isso, olho ao redor, vejo o meu mural com fotos de quando era pequena, as paredes com colagens de cor laranja, e resolvo escrever. 

Escrever, a meu ver, transcende o elegante, o bonito, e se torna necessário. Não preciso de palavras bonitas, rebuscadas, nem de tanta poetização. Basta um texto corriqueiro, simples, um pouco desdeixado, mas que expresse exatamente o que sinto nesse momento. Ao término de qualquer texto, uma nota, uma notícia, uma crônica, qualquer que seja o gênero, é como se tivesse feito horas de terapia.   

É sempre bom recorrer a métodos naturais para se curar dos males, pelo menos para escrever não precisa muito investimento, basta um papel, uma caneta, e é claro, muitas inquietações.

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